VESTÍGIOS DE UM TEMPO NÃO LINEAR
Conta-se que Tales de Mileto, ao olhar para o céu, espantou-se ao perceber que aquele universo, em toda a sua complexidade, não era caos, mas cosmos — uma ordem. Esse gesto inaugural do maravilhamento teria sido um marco fundador da filosofia ocidental: o que parecia desordenado revelava, na verdade, a limitação humana diante da estrutura que o organiza. O caos, e não a ordem, é a ilusão.
A trajetória artística de Antonio Mendes move-se nessa mesma inquietação: aquilo que, à primeira vista, pode parecer caótico revela, aos poucos, sua própria coerência sensível. Na celebração de seus 60 anos, esta exposição testemunha como sua produção se organiza não linearmente, mas — como define Leda Maria Martins — em um “tempo espiralar”, no qual passado, presente e futuro se entrelaçam em camadas de retorno e atualização.
No contexto da arte pernambucana, tais espirais manifestam-se também em recortes geracionais e espaciais. Formada sob a influência de artistas olindenses, a pintura de Antonio desdobrou-se como impulso à abstração e recusa à linearidade: das primeiras paisagens que se transfiguram em elementos não figurativos aos traços que parecem buscar romper os limites do suporte.
Um episódio familiar, relatado pelo artista, ajuda a compreender essa poética: a lembrança do avô que, impossibilitado de erguer um muro de alvenaria, construiu uma cerca com latas de óleo e arame – um gesto de precariedade convertido em composição estética. Transposta para a tela, essa lembrança (que aproxima “arte moderna e memória popular, Rothko e Mondrian do improviso inventivo de ‘seu Seba’”) torna-se também gesto crítico: à inventividade imposta pela carência e à beleza erguida a partir dos recursos possíveis.
O fato de esta exposição ser recebida em Olinda, na casa onde morou Guita Charifker, guarda simbolismo singular. Espaço de convivência de uma geração de artistas pernambucanos, a casa se encontra ao lado das residências de Maria Carmem e Amaro Chrysóstomo, onde Antonio teve suas primeiras aulas de pintura. Foi nesse entorno que se sedimentaram tanto sua técnica quanto as paisagens iniciais de sua obra, que continuam a reverberar ao longo de sua trajetória.
Mais do que revisitar o passado, a obra de Antonio Mendes o transforma em matéria de invenção, aberta ao futuro. Como o próprio tempo, quando atravessado pela memória e pelo afeto, sua trajetória não se fecha em linhas retas, mas se expande em movimentos de retorno e transformação. Uma ordem não linear, em fluxo, livre.
Filipe Campello






































